AI PALESTINA

( Fado )



Intifada pedra sangue

de menino a lutar

Por Allah da liberdade

àguias mortas de pesar

De Ramallah e Jenin

chôro e pranto tão vermelho

sangue em rocha derramado

intifada feito fado

Ai Palestina, Phalestyn

Cola teu espelho quebrado

grita, grita mais além

Palestina, Phalestyn

Terra de Jerusalém

Fadista " Valéria Mendez "
( FADO : Letra - Valéria Mendez ; Música - Carlos Gonçalves)
FUNCHAL / MADEIRA / PORTUGAL

Fadista "Valéria Mendez"



Isto, nenhum fadista, algum dia experimentou !
Ou
"Sessão de Fado à força, num Hotel de Jerusalém Oriental..."



A sala do Hotel National, de Jerusalém Oriental, estava pejada de homens e mulheres, todos ostentando o lenço palestino ao pescoço.

O encontro era semi-clandestino. Havia fortes indícios de que, aquele encontro entre activistas do Al Fatah, e jornalistas, activistas estrangeiros e pacifistas, poderia estar na mira do Mossad israelita. A pressão, o medo e a revolta pairavam no ar. O Governo Israelita havia proibido concentrações publicas e privadas, com teor político.

O Al Fatah, convocara aquela reunião, aproveitando a presença em Jerusalém ,de uma bateria de jornalistas italianos e franceses, para, numa improvisada conferência de imprensa, apresentar fotografias, relatos, e um video, denunciando atrocidades, cometidas pelo governo judeu, em muitas aldeias palestinianas, onde era impossível, qualquer estrangeiro ,fazer qualquer incursão.

Na altura, eu estava no Hotel, e havia participado, numa manifestação e num espectáculo, organizado pela "Association France-Palestine", que conseguira concentrar vários milhares de pessoas, incluindo muitos israelitas liberais, fartos da guerra e da insegurança vigentes naquelas paragens.

A vedeta israelita Sarah Alexander, encontrava-se igualmente no local, provando que no país da Torah, existem pessoas com discernimento político. Aliás o seu "engajamento" político, havia-lhe valido diversas perseguições, do governo do Likud, que lhe levara à decisão de ir viver para Paris.
Existem, em Israel, muitos artistas "proibidos", sem acesso às rádios e Televisão Nacional. Um exemplo da "democracia" de Sharon.

Subitamente, alguém irrompe na sala, alarmando os presentes, de que na rua, verificava-se um movimento de viaturas suspeitas. Na altura, passava-se num écran, slides, com fotos de meninos feridos, mortos, velhos junto de amontoados de cimento e pedras, logo após a uma demolição ,da antiga casa duma família palestiniana, que de repente, vira-se sem casa e sem bens, fruto da criminosa instalação de um novo colonato Judeu. Quase sem pensar, corri para um canto do bar, onde havia depositado a minha velhinha guitarra portuguesa, que ,apesar de ser muito mal tocada por mim, havia-me acompanhado até tão distantes paragens.

Por vezes, apetecia-me cantar,em convívios nocturnos, com meia duzia de amigos à volta. No proprio espectáculo, em que tinha participado, eu houvera tocado e cantado o Fado Adiça, um fado tradicional, por entre outros temas , com o acompanhamento habitual do playback instrumental. Fora uma "gracinha" para "desopilar", duma actuação, até certo ponto empobrecida, pela falta de musicos ao vivo...

Peguei então na guitarra, alguém desligou a máquina de projecção dos slides,e corri para o pequeno palco da sala, já cantando o refrão de "Coimbra" (April in Portugal).

Todos os presentes, tácitamente entenderam a minha intenção, e entoaram comigo o "lá-lá-lá" do refrão. Ainda não havia terminado o fado, um grupo de homens à paisana, irrompiam pela sala adentro, de forma truculenta e ameaçadora. Continuei a cantar... No fundo da sala, os caciques entreolharam-se, perscutaram aquele grupo heterogéneo de palestinos, franceses, italianos, judeus, e dois suecos muito louros. Finalizei o fado,e anunciei uma canção do folclore português, um Malhão, pedindo a participação de todos, marcando o ritmo com palmas. A meio do Malhão, tive uma vontade enorme de rir, quando olhei para o fundo da sala, e vi, a dezena de caciques, armados com pistolas à cintura, a baterem palmas, ao som dum Malhão português.

Passados uns minutos, o Director do Hotel, um palestiniano residente em Jerusalém Oriental, conferenciava baixinho com o grupo. Acabaram por sair, sem incomodar nenhum dos presentes.

Mais tarde, soubemos que, na rua, encontravam-se vários carros de militares, prontos para "dispersar" o encontro,e prender possíveis "terroristas" do Al Fatah, segundo informações que haviam recebido. Afinal, eles chegariam à conclusão de que afinal, aquele "ajuntamento" de pessoas na sala do Bar de um Hotel em Jerusalém Oriental, não passara dum pequeno recital duma cantora portuguesa de Fado.

Já passava da meia noite, quando recebi uma enorme ovação, muitos beijinhos e abraços daqueles jovens palestinos sofridos.Um deles, apertou-me a mão, e disse-me:
- "Que Allah te proteja sempre. Tu hoje foste um de nós."
Eu apenas lhe retorqui, em árabe
-" Allah ak bhar !"( Estava escrito !")
Afinal, o "destino traçado", sentimento tão fadista e português, não estava assim tão longe do arábico sentir dos insondáveis mistérios da vida, dos povos distantes do Profeta...

Fadista " Valéria Mendez "
( Crónicas de Uma Vida Cheia )
FUNCHAL / MADEIRA / PORTUGAL

Fadista "Valéria Mendez"