Amália Rodrigues
( 1920 – 1999 )
Singela Homenagem

" AMÁLIA - CINCO ANOS DE SAUDADE "
( Pequeno Concurso Literário )
AUTORA : Valéria Mendez




Este país já foi uma caravela
Tripulada por sonhos de menino,
Bolinando à mercê do seu destino
Cumprido em vãos caminhos de canela.

Já teve este país uma cancela
Erguida do mais puro desatino,
Tornando um povo – outrora peregrino –
Refém da sua própria cidadela.

Mas tu, de loucas asas de gaivota,
Traçaste a velhos fados nova rota,
Convertendo esta terra em mar fecundo.

Estranha a forma de vida em que te deste...
Com a voz que Deus te deu tu devolveste
Um novo Portugal a um velho mundo.


VENCEDOR : Fernando
06/10/2004
BLOG : Cidadão do Mundo

       

V E S T A L


No palco, quatro musicos.

Uma mulher de negro e vermelho, qual stendhaliana aparição, faz esvoaçar o seu xaile, a " Lágrima " verte dor e pranto. Provoca-nos espanto. Dir-se-ia, estarmos presentes a uma Vestal.

Deusa de Portugal, Sacerdotiza do Mundo, " por vontade de Deus ", cantando ao "Povo que lava(s) no rio ", ansiando "...ir a Viana ", num canto simples de Afife.

A Mulher, ora triste ora alegre, num 'nonsense' genial, confessa-nos, que foi " ao mar buscar sardinhas ", para dar ao seu amor, e jocosamente pergunta: "É ou não é ? ".

Saindo deste encarnado alegrete, recorda-se dos infindáveis mistérios da Morte, pede-nos " Silêncio. Do Silêncio faz-se um grito... deixai-me chorar um pouco. " Do Grito ao espanto, a Vestal avança.

Agora é Mãe, daqui a pouco menina, cantando uma cantiga de roda, saltitando pelos prados verdes. Pureza.

E logo transfigura-se. Surge-nos uma velhinha, com 'estórias' mil para contar, como aquela " Carmencita, a cigana mais bonita, do que um sonho, uma visão ". Depois, a velhinha desfia-nos a sua vetusta sabedoria, lembrando-nos carinhosamente que " breve desfaz-se uma vida honrada e boa, ninguém sabe quando nasce, pr'ó que nasce uma pessoa."

E aconselha, qual doce avózinha que, "o preciso é ser-se forte, ser-se forte e não ter medo, porque na verdade a Sorte, como a Morte, chega sempre tarde ou cedo ".

E de novo, a alquimia da Deusa faz a Magia, e num ápice, revela-se Mulher no Verão da vida, sensual, voluptuosa, apaixonada e voluntariosa, uma varina, com " movimentos de gato ", trazendo " na canastra, a caravela, no coração a fragata ".

E já no fim da linha, a voluptuosidade, dá lugar à lucidez. Pergunta subitamente " ao vento que passa, notícias " do seu País. "O vento, cala a desgraça, o vento nada " lhe diz.

E, como a desventura não pode, nem deve ser alimento, regressa a rapariga gaiata, de pés descalços, bailando o Malhão, convidando as gentes, a " comer e beber, ó trintintim passear na rua ".

O Povo, acabada a Aula de Vida, perspassadas as alegrias, as desventuras, a negritude da Lucidez, insiste em não querer apartar-se da Sua presença. No intimo de cada um, uma pergunta assome ao espírito.

O que fará correr aquela Mulher sem idade, o que fará cantar aquela Voz, de Todos Nós ?

Sem que ninguém lhe houvera perguntado, a Vestal responde-nos :

" Foi Deus. "


VALÉRIA MENDEZ - Fadista

" Impressões de uma Noite com AMÁLIA, no COLISEU DOS RECREIOS, LISBOA "

( Texto da Autora do Concurso Literário )



       


AQUI TÃO LONGE EU VIVO
COM A SAUDADE DOS MEUS
O TEU FADO ESTÁ COMIGO
FOI POR VONTADE DE DEUS

AO OUVIR A TUA VOZ
AMALIA, FAZES-ME UM BEM
E SÓZINHA CANTO UM FADO
TEU, E LOGO A SAUDADE VEM.


Débora Santos - LONDRES
02/10/2004

       


Cinco anos de saudade
recordo a tua partida
não quis crer que era verdade
QUE ESTRANHA FORMA DE VIDA!

Cantaste como ninguém
todos te recordarão
Só o grande amor de mãe
TEM ESSE TEU CORAÇÃO

Choram os que amam o fado
jamais serás esquecida
mais teu coração amado
VIVO,DE VIDA PERDIDA!

Jóia, Senhora, Diva
a voz da Rosa em botão
chama da alma doída
QUEM LHE DARIA O CONDÃO?

Amália, nome singelo
és e serás sempre querida
ouço aquele fado tão belo
ESTRANHA FORMA DE VIDA...

Que vivas sempre!

Zecatelhado - 02/10/2004
BLOG : "Tadechuva"

       


Amália não é adeus
Amália não foi perdida
A Amália que vive em nós
Deu-nos a voz de uma vida

E vive em nós na memória
Que nesta vida levamos
A vida e a voz deu Amália
Somos nós que a cantamos

Somos povo de poetas
A quem falta aquele enlace
De haver tão boas letras
Sem haver quem as abrace

E dar ao povo uma voz
Um sentir um coração
Não nos deixa sentir sós
Faz-nos ver o nosso irmão

Terá sido essa talvez
Dela em nós a maior glória
E por isso que nos fez
Vive em nós a voz de Amália.


OrCa - 03/10/2004
BLOG : "SETE MARES"

       


FOI UM DEUS MAGOADO
EM DOR SOFRIMENTO E PRANTO
QUE ESTRANHA VIDA E VOZ ME DEU

DEU TAMBÉM AOS OLHOS A LUZ
E ÀS ROSAS PERFUME
AO SOL A LUA
AO OIRO A PRATA

UM ROSÁRIO ÀS ESTRELAS
QUE NO CÉU O DESFIAM
AO PEITO O NEGRO E AS ASAS
DA ANDORINHA

VENTURA TERNURA E CANTO
AINDA O AMOR QUE PELO DESGOSTO CONHEÇO
E O LAMENTO QUE SE TRANSFORMA EM PRANTO

DEUS O VENTO O FIRMAMENTO
COM O AS ONDAS O AZUL DO MAR
DAS PENAS CHORANDO O AMOR
COM A VOZ DO ROUXINOL



MORFEU - 03/10/2004
BLOG : "ANOMALIAS"

       


Tem ainda Portugal no coração
uma ida Diva sem par.
Que da sua memória singular
não percamos a recordação.

Outra diva, na Blogosfera lusa,
a partir da Madeira persiste:
Quer cantar enquanto existe
a memória da lusitana Musa.

Mantenhamos sempre no coração,
da Amália, a sua memória.
Continue a nossa amiga Valéria
com força e com muita convicção.

Não é conjura, não é por convénio:
Teve Portugal muita sorte,
por ter visto nascer
quem ao tempo negou a morte;
por ver aqui crescer
uma Mulher de Génio.

Tem sorte a Amália,
e tem sorte Portugal,
em ter na Valéria
uma amiga sem rival.

Estas rimas não estão brilhantes,
não honram a qualidade da Amália.
Pretendem, muito modestamente,
dar umas conchas a quem nos deu diamantes.



Francisco Nunes - 03/10/2004
BLOG : "Planície Heróica"

       


Amália e o Pranto
Agora ela já não canta
Se ouvisse, dava um recado
Pedia-lhe, vá lá, encanta
Com essa tua voz do fado!

Tudo é tão passageiro
Tal como um beijo dado
A quem cantaste primeiro,
Qual foi o teu primeiro fado?

Nasceste como uma ave
Que canta uma melodia
E espalha canto suave,
Quente, ao sol do meio-dia...

E a ave que cantava bem
Que fazia do cantar o espanto
Perdeu o seu maior bem
Foi-se a vida, nasceu o pranto!

Antonino Botelho * 05/10/2004
BLOG : "HAMMER"

       

No frágil barco veleiro,
onde eu um dia
deixei presa a minha alma,
a minha voz procura
o seu próprio lamento.

Não vi colchas com barras
nem violas, nem guitarras.
Apenas o amor sem rosto,
pássaro pequeno, hora
de chegar a lugar nenhum.
Um espaço roubado à mágoa
enquanto ao dizer adeus à vida
te procurava nas pontes da tristeza.

Eu não te acompanho mais
porque habito o sol dentro de mim,
descubro a terra, aprendo o mar
e deixo boiar leves, desatentos,
os meus pensamentos de mágoa.

Do que foste tenho sede.
Sede da tua sombra triste
encostada a uma parede,
encostada ao meu silêncio.
Mas nunca se dói só.
Dói-me o povo esquecido
e morro de ternura por estas coisas
vestindo pequenos nadas,
por esta mágoa, breve tédio.

O teu nome próprio: Amália
que cheira a saudade, a povo.
Que cheira a solidão,
a silêncio magoado.
Disse-te adeus e morri
e o cais vazio vazio de ti ...

GIN * 05/10/2004
BLOG : "O GIN TÓNICO"

       


Só para partilhar este espaço,
como Amália nos ensinou a fazer
quando se juntam vontades e amigos.
Ali para os lados da Calçada na freguesia da Pena,
onde brinquei e cresci.
E provavelmente, poucos terão conhecido
que "a vizinha da minha mãe" não só que bem cantava como escrevia...


"Que culpa tem o destino
Deste destino que eu tenho
Se o desgosto é pequenino
Eu aumento-lhe o tamanho

É meu destino
Se o desgosto é pequenino
Eu aumento-lhe o tamanho

Se o desespero matasse
Eu já teria morrido
Talvez alguém me chorasse
Talvez o tenha merecido

Sinto que cheguei ao fim
Das ilusões que não tive
Porque alguém gosta de mim

Algo de mim sobrevive
Cheguei ao fim
Mas se alguém gosta de mim
Algo de mim sobrevive

Adeus que chegou a hora
Há muito a venho esperando
E se por mim ninguém chora
Faz-me pena e vou chorando

Já vou embora
E se por mim ninguém chora
Faz-me pena e vou chorando"

Comentário de VALERIA MENDEZ:
Eduardo, eu canto este poema da nossa Diva Absoluta,
publicado no livro "VERSOS", de Amália (edição COTOVIA),
musicado por Carlos Gonçalves,
nunca publicado em disco.
A Amália só o cantou em publico uma vez, no Coliseu, em 1994.
Mal saberia ela que em 1995, teria de dar por terminada a sua carreira, por motivos de saúde.
Foi uma maneira muito bonita de , EXTRA-CONCURSO,
homenagear a "vizinha" de sua mãe,
a minha querida Amiga e Cantora de Todos Nós.
Um abraço,
Valeria


EDUARDO * 05/10/2004
BLOG : "BLOGUICES"

       


Sendo Rosa, sendo dor e pensamento.
Na ternura na magia do momento,
A saudade é mais alma e está doendo,
És Amália a Rainha do Fado,
encantamento.



ALUENA - 06/10/2004
BLOG : "1 BICA"

e SITE : MAKTUB POEMAS

       


"Adeus vida que tanto duras... vem morte que tanto tardas"
E nesse dia a morte veio e levou consigo Amália Rodrigues.
Porém, Amália permanece para sempre no meu e no coração de muitos que foram tocados pela sua arte.
Para além de uma artista excepcional, Amália carregava em si o sentido do fado.
Um fatal destino de amargura e solidão.

"Foi por vontade de Deus" que Amália desde cedo emocionou multidões: Desde as vielas de Alfama aos palcos de Paris.

Mais que tudo, Amália vive em cada coração de Portugal.
É parte da nossa história... é parte de nós.

Amália, "Se eu soubesse que morrendo tu me havias de chorar... Por uma lágrima tua, que alegria me deixaria matar"
"Povo, povo... eu te pertenço"
Amália é de todos nós.

Entregou-se a Portugal e ao mundo e dedicou-nos toda uma vida de mal-fadada.
A angústia de quem tem por castigo o Fado e dele faz uma arte que nos encanta.
Cinco anos passados sobre a sua morte e uma certeza absoluta de que não só marcou a nossa história, como a vida de muitos.

Obrigado Amália, obrigado a quem ainda faz por te manter viva.
Por muitos anos sentirei a tua falta, mas ainda assim...

"Eu sei meu amor que nem chegaste a partir... pois tudo em meu redor me diz que estás sempre comigo"



Carlos Farinha - 09/10/2004

       


Com Esta Humilde Homenagem Te Lembro


Sob os pés magoava-me a dureza fria e húmida das rochas rectangulares que formavam a negra rua que percorria.

Antecipava-se ao meu caminhar fugidio o vapor que exalava da minha boca na respiração ofegante de quem perseguia um destino, de quem se ausentava das trevas da noite com passos ligeiros e sincopados.

Esquina após esquina, beco após viela, fintava as labirínticas ruelas, rumando impulsivamente ao que eu nunca acreditara poder vir a ver e que começara a sentir na pele, na alma, neste meu ser que corria apressado.

Escapava da noite rumo à luz.

O denso nevoeiro toldava os sons, silenciava os espíritos, mas o teu eterno timbre derrubava quaisquer barreiras e chegava em torrente avassaladora e envolvente.

O frio da noite deixara de ser cortante, impiedoso, paralisante.

O embalo quente da tua voz, o fogo do teu fado incendiara a atmosfera em volta e atraíra-me até ti.

Da porta que se percebia entreaberta na escuridão, jorrava a voz incandescente, melodiosa, afinada.

Entrei.

Ao fundo, ladeada por dois guitarristas sentados, tu, anjo de negro trajado cuja voz perfurava o céu, cujo grito obrigava paredes a confessar amores tímidos, cujo choro emocionava blocos de granito, cantavas, tocavas-me, abraçavas-me no terno e triste aperto de teu cantar.

Fiquei a ouvir-te, exasperado com tamanha perfeição, acordando do nocturno sonho frio num despertar lento e embalado pelas ondas da tua voz.

Acordei e desapareceras. Há cinco anos.

Agora já não nos acompanhas mais.

Mas serás sempre, para sempre, para todo o sempre,
Amália.


Ricardo Garcia - 11/10/2004
BLOG : "CAPITÃO AMENDOIM"


       









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